Ganesha ficou.
Conta-se que Parvati criou Ganesha para protegê-la. Shiva estava em um de seus inúmeros retiros e, enquanto ela tomava banho, o menino permanecia do lado de fora, impedindo que alguém entrasse...
Até que Shiva voltou.
Ganesha não sabia quem ele era. Sabia apenas que tinha recebido uma missão de sua mãe: ninguém passaria por aquela porta. E não deixou Shiva entrar. Shiva — que destrói para que algo novo possa existir — arrancou a cabeça do próprio filho.
Parvati, desesperada, exigiu que ele consertasse o estrago. Há versões que dizem que Shiva encontrou um elefante morto; outras contam a história de maneira diferente. Pouco importa para o que quero contar aqui. Ele encontrou um elefante, tomou sua cabeça e a colocou sobre o pescoço do menino.
E assim nasceu Ganesha como o conhecemos.
Mas a primeira vez que Ganesha apareceu para mim não foi em um livro.
Foi em um sonho.
Eu tinha acabado de me separar. Estava sozinha, com três filhos, tentando descobrir como reconstruir uma vida que havia desmoronado enquanto lidava com uma série de dificuldades — emocionais, financeiras e todas aquelas que aparecem juntas quando parece que o chão resolveu desaparecer debaixo dos nossos pés.
E eu sonhei com um elefante.
No sonho, eu abraçava sua enorme cabeça. E, em algum momento, me vi refletida dentro do olho dele. Acordei sabendo.
Era Ganesha.
Não houve explicação. Não houve voz vinda dos céus. Não houve promessa de que dali em diante tudo seria fácil. Havia apenas uma sensação muito nítida:
Calma. Eu estou aqui.
E talvez tenha sido exatamente disso que eu precisava naquele momento. Não que alguém removesse magicamente todos os obstáculos da minha frente, mas que me ajudasse a encontrar sabedoria para atravessá-los.
A vida foi melhorando.
Devagar, como a vida costuma melhorar.
E Ganesha foi ficando.
Ontem começou mais um Ganesh Chaturthi, e neste ano as celebrações seguem até 25 de setembro. Mas, para mim, Ganesha há muito deixou de caber em uma data do calendário.
Ganesha é leite com mel às terças-feiras.
É, muitas vezes, adormecer com o japamala ainda na mão, repetindo baixinho:
Om Gam Ganapataye Namaha.
É quebrar o coco para lembrar que, antes de pedir que sejam quebrados os obstáculos do caminho, talvez seja preciso quebrar um pouco do próprio ego.
É pedir ajuda e, não raro, receber uma resposta quase indecentemente rápida. 😂
Mas há uma peculiaridade nisso.
Ganesha raramente me entrega a solução pronta.
Ele sopra a solução no meu ouvido.
Como quem diz: “Olha ali.”
E sou eu quem precisa enxergar.
Sou eu quem precisa entender.
Sou eu quem precisa caminhar.
Talvez seja por isso que, depois de tantos anos, eu tenha dificuldade de explicar o que sinto por ele. Porque algumas divindades nós estudamos. Algumas reverenciamos. Algumas procuramos quando precisamos.
E há aquelas que, em algum momento da nossa história, simplesmente sentaram ao nosso lado e ficaram.
Ganesha ficou.
Ficou quando eu tinha medo.
Ficou enquanto eu reconstruía a minha vida.
Ficou nas oferendas, nos mantras, nos cocos quebrados, nas decisões difíceis e nas pequenas soluções que surgiam quando eu já não sabia muito bem para onde olhar.
Se eu amo esse elefante?
Olha...
me faltam palavras para dizer.
Om Gam Ganapataye Namaha.






Comentários