Toda Bruxa é de Esquerda.
Carta-manifesto
Este manifesto nasce do óbvio ululante que precisa ser dito. Escrevo-o porque minha Bruxaria tem memória, tem consciência e tem posição. Não separo minha espiritualidade da maneira como compreendo a dignidade humana.
Se acendo minhas tochas para Hécate, se reconheço sua presença nas encruzilhadas e nos lugares onde a sociedade prefere não olhar, preciso perguntar a mim mesma: como concilio essa devoção com minhas escolhas no mundo? Que sentido teria honrar uma divindade que reconheço como protetora dos marginalizados e, ao mesmo tempo, permanecer indiferente à exclusão?
A Bruxaria não termina quando se apagam as velas do altar. Ela deve ser coerente com a maneira como trato as pessoas, com os direitos que defendo e com a responsabilidade que assumo por minhas escolhas.
Não sou Bruxa coach cristã, forjada pela teologia da prosperidade, que vai te dizer que, se a sua realidade não é a que você deseja, é porque você está amaldiçoada ou tem mentalidade escassa. Fake it until you make it, deixo para os que amam a mentira. Não sou cria do “Novo Pensamento” de pastor americano. Conheço minhas raízes e o solo que as abriga: um chão marcado pela desigualdade social histórica e por ditaduras militares que contaram com o apoio do Tio Sam.
Entendo que o abismo social não é culpa do indivíduo, tampouco resultado da falta de fé, de pensamentos negativos ou de uma mentalidade de escassez. Ao contrário, o abismo é consequência de estruturas econômicas e sociais profundamente desiguais, sustentadas e reproduzidas pelo capitalismo e pelo imperialismo ao longo de séculos de colonização e exploração.
Sou crítica a esse sistema, vivendo nele e pagando minhas contas, apesar de todos os desafios de uma mãe solo de três filhos.
Dessa forma, repudio veementemente toda e qualquer pessoa bolsonarista que se autodenomina bruxa (assim, com minúsculo), pois Bruxa de verdade não vota em quem é apoiado por uma bancada neopentecostal, cujas ideias conservadoras, ao longo da história, serviram para justificar a perseguição religiosa, o controle dos corpos e a submissão das mulheres.
Reconheço nessa tradição de intolerância as mesmas estruturas de poder que alimentaram as perseguições por bruxaria e que, ainda hoje, se manifestam no patriarcado, na misoginia e na violência contra as mulheres, inclusive no feminicídio.
Dito isso, voto 13.

Que Hécate nos ilumine, nos guie e nos liberte da cegueira.





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